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 1) Aires Gomes Fernandes (Investigador Independente), “A comunidade judaica de Mértola em tempos medievos”

 

Quando se fala de Mértola, automática e inevitavelmente associamos esta vila à marcante presença e influência islâmicas, realidade materializada em muitos dos elementos arquitetónicos que ainda hoje se preservam. Mértola seria conquistada pelos cristãos em 1238, ficando, praticamente desde essa altura, sob o domínio da Ordem de Santiago. E se a marca islâmica não seria apagada pela efetiva ocupação cristã, algo surpreendente é também a forte presença de judeus nesta localidade do baixo Alentejo ao longo dos séculos XIV e XV. É justamente essa comunidade judaica de Mértola, na Idade Média, que pretendemos dar a conhecer a partir desta investigação. Além de procurarmos identificar o máximo de pessoas dessa comunidade, tentaremos saber quais as profissões que exerciam e desse modo perceber se essa forte presença judaica poderá estar diretamente relacionada com a intensa atividade comercial da localidade. Convém não esquecer que o rio Guadiana era navegável até Mértola, constituindo-se esta vila como um importante entreposto comercial, com grande impacto quer no abastecimento quer no escoamento de diversos produtos das localidades do interior alentejano. Procuraremos também localizar o espaço onde se situaria a judiaria bem como o local onde ficaria a sinagoga. É, igualmente, nosso intuito estudar e perceber alguns dos aspetos da interação dos judeus com a restante população. Há também questões para as quais dificilmente obteremos resposta, mas que não poderemos deixar de colocar, mormente como seriam vistos e recebidos, pela comunidade judaica aí residente, os judeus degredados para Mértola? É que Mértola, no séc. XV, teria um couto de homiziados, e sabemos que entre aqueles que para aí foram enviados também existiam judeus.

 

2) Bruno Miguel Duarte Faustino (CHSC, Universidade de Coimbra), “A família cristã-nova dos "De Negro" e a sua participação no comércio atlântico na primeira metade do século XVI.”

 

O papel ativo dos cristãos-novos como agentes fundamentais nas redes comerciais do sistema atlântico consegue-se identificar já na primeira metade do século XVI. Através de uma abordagem que conjuga o pendor biográfico e a análise de interações comerciais, esta comunicação pretende explorar a atividade dos mercadores de ascendência judaica, Luís Vaz de Negro e do seu filho Gabriel de Negro, no mundo do açúcar atlântico quinhentista com ligações às grandes praças comerciais da época (Antuérpia, Veneza e Lisboa). Apesar da diminuta quantidade de fontes disponíveis, recorremos a um conjunto de documentação inédita de cariz quantitativo e qualitativo, como contratos de compra e venda, registos contabilísticos e cartas de correspondência, com as quais procurámos analisar um exemplo de uma família sefardita envolvida no grande trato açucareiro na primeira metade de quinhentos.

 

3) Maria Teresa Gomes Cordeiro (Investigadora Independente), “Práticas cripto-judaicas ou o caso dos cristãos-novos de Viseu (sécs. XVI e XVII)”

 

Nos séculos XVI e XVII vive em Viseu uma comunidade de cristãos-novos que ocupa um papel central nas dinâmicas da cidade, evidenciado tanto na ocupação das ruas centrais da urbe como na afirmação destacada no seu tecido social, tomando a seu cargo os trânsitos mercantis.  Revelam estratégias de conservação da sua memória colectiva ao mesmo tempo que desenvolvem esforços muito persistentes de integração na lógica da elite cristã-velha. Na sua relação com cristãos-velhos e dentro da comunidade cristã-nova revela-se a ambiguidade de gestos e intenções, sobressaindo nos propósitos uma visão muito pragmática e utilitária da vida daqueles que participam na elite da cidade. Alguns persistiam em antigas e agora proibidas representações religiosas, nem que já muito pouco respeitem os preceitos da velha religião mosaica e acusem claros indícios de um sincretismo ritual, parecendo mesmo tratar-se de uma ritualidade nova. Interessava, no fundo, aglutinar numa qualquer ideia essencial as condições de sobrevivência de um povo, por muitos dos seus colocada em risco pela cedência a processos de assimilação em curso. Mas, em tempos de unicismo religioso e manutenção de um certo establishment, sofrerá a cidade de Viseu, quer por efeito das leis de limpeza de sangue, quer com a acção do Santo Ofício. Muitos decidem partir. Outros ficarão ao alcance da prisão e do arresto de bens, sobrando para a cidade a perda do capital humano que ofereciam estes homens de sangue manchado.

A proposta é, assim, com o eventual proveito que possa sugerir esta experiência histórica, questionarmo-nos sobre actuais formas de racismo, recentrar o nosso olhar naquele que é Diferente, aquele que afinal, somos todos nós.

 

4) Alla Márkova (Investigadora Independente, Nova York), “As novelas de cavalaria: influência pirenaica nos judeus”

 

Os judeus expulsos da Península Ibérica levaram consigo para o exílio não só os apelidos e idiomas, mas também mais uma coisa não material – o interesse e amor pela literatura de cavalaria. E um fenómeno pouco investigado – os que pesquisam romances de cavalaria têm imenso material cristão para estudar, e os especialistas na literatura judia não podem imaginar que os judeus medievais pudessem ler e gostar de livros de batalhas, feitiços e encantamentos, belas donzelas e ferozes feras. Por um lado, a literatura tradicional tem criado uma imagem do judeu avaro, covarde e fraco, que resulta ridículo, não sabe usar armas e não consegue proteger-se a si, sem mencionar os outros. Ainda mais difícil é imaginar os judeus como heróis de uma novela de cavalaria. Não estamos preparados para perceber as qualidades cavaleirescas, como valor e força, abnegação e possibilidade de amar e lutar pelo seu amor – tudo o que nós associamos com a nobreza – como pertencentes aos judeus. Por outro lado, os próprios rabinos proibiam a leitura de “esses livros de batalhas em vernáculo”. Mas, apesar de isto ser contra as tradições judaicas, os judeus liam e gostavam dessas novelas, e não somente quando viviam na Península, onde os vizinhos cristãos gostavam desse género de literatura, mas também dois ou três séculos mais tarde, quando já viviam no Império Otomano. E não só traduziam as histórias dos nobres cavalheiros e suas belas donas, como ainda as adaptavam para seu uso. Até podemos supor que escreviam as suas próprias novelas desse tipo, mas nem todas têm chegado aos nossos dias.

 

5) Rosa Bela Gomes de Azevedo, Maria Teresa da Silva Tremoceiro, Luís da Cunha Pinheiro (Arquivo Nacional Torre do Tombo), ““Gente de nação hebreia” ausente do reino segundo a inquirição do Santo Ofício de 1613”

 

Em 1613, por iniciativa do bispo D. Pedro de Castilho foi publicado um novo regimento do Santo Ofício “de maneira que de todos seja sabida e entendida [… para] que em todas as Inquisições à nossa jurisdição sujeitas, se guarde e pratique uniformemente assim no modo de proceder como em tudo o mais e mandamos aos ditos inquisidores que conforme a este Regimento procedam, julguem e decidam todos os casos que ocorrerem e nos que não forem nele expressos sigam a disposição de direito, conforme a Bula da Santa Inquisição, tendo sempre a Deus diante dos olhos”. Nesse mesmo ano, os inquisidores solicitam informação aos párocos sobre as “pessoas da nação hebrea” que se tinham ausentado, quer das suas freguesias, quer do reino, sendo a perseguição ao judaísmo um dos principais objetivos do Santo Ofício, embora a sua ação também incidisse em outros crimes, por exemplo a heresia, sodomia, bigamia ou solicitação no confessionário. Para a sua recolha os párocos deveriam agir em segredo, para que se “saiba de todas as pessoas da Nação que se tem absentado desses ditos seus lugares, & dos mais que na margem desta lhe for emcommendado, assi homens como molheres com declaração de seus nomes, idade, officios, tratos, & respondências que tinhão, donde forão naturaes, moradores, & se absentarão, & pera que partes, & onde ao presente residem, & em que tempo se forão, & porque causa, & se com casa mouida, & com quantas pessoas, que feyções tem do corpo, se altos, se baxos, se grossos, se magros, se aluos, se pretos, que cor de rosto barba olhos, se são casados, & com quem, se viuuos, que molheres tiuerão, se solteyros cujos filhos, & com todos os mais sinais & confrontações que se puderem alcançar pera se vir em melhor conhecimento das ditas pessoas absentadas”. Esta informação seria tão importante que, caso o pároco não guardasse segredo, seria excomungado. Os testemunhos recolhidos permitiriam aos oficiais do Santo Ofício conhecer o paradeiro da “gente da nação” de forma a que pudessem controlar o seu comportamento e as suas atividades. A presente comunicação pretende elencar a “gente da nação” que se ausentou a partir dos testemunhos dos párocos que perduraram até aos nossos dias, nomeadamente de freguesias de Braga, Évora, Lisboa, Vila Nova de Portimão, Castelo de Vide, Olivença, Tavira, Guarda, Coimbra, Viseu, Lamego, Coruche, Monforte. Procurar-se-á saber para onde partiram, quem os acompanhou, há quanto tempo tinham partido e se tinham sido presos ou não pelo Santo Ofício.

 

6) Sónia Duarte (Universidade Nova de Lisboa), “”Lourenço Pereira, cristão-novo, que vive de ensinar a dançar”: imagens pintadas, e outras fontes documentais, para o estudo da música e da dança na cidade do Porto, em meados do século XVII”

 

Partindo do levantamento in situ de imagens de música na pintura portuguesa do largo tempo do Barroco, investigação a que nos temos dedicado nos últimos anos, apresentaremos esta iconografia e outras fontes documentais que nos têm permitido contribuir para o estudo da música e da dança em Portugal. Grosso modo, incidiremos esta comunicação no Processo inquisitorial de Lourenço Pereira, cristão-novo, mestre de dançar, filho de um ourives-mercador, acusado de heresia, apostasia e judaísmo, e documentado como tangedor e dançador na cidade do Porto, encontrando-se, no ano de 1664, preso nos cárceres da Inquisição de Coimbra. Ao longo dos 290 fólios que constituem o documento em apreço, ficamos a conhecer o nome de outros dançadores, das ruas que habitavam, dos lugares que frequentavam, das acusações de que eram alvo, das relações profissionais que estabeleciam, dos espaços em que dançavam e até do desapreço social por este tipo de entretenimento, uma vez que Lourenço Pereira é citado como aquele que «não tinha outro ofício mais do que dançador».

 

7) Joana Mestre Costa (CLLC, Universidade de Aveiro), “Singularidades da Archipathologia (1614): o(s) lugar(es) do divino no magnum opus do médico luso-sefardita Filipe Montalto”

 

Filipe Montalto (Castelo Branco, 1567 – Tours, 1616), nado cristão-novo, repudiou o Portugal de Seiscentos e, com ele, o cristianismo, por um percurso na Europa transfronteiriça, tão devotado à fé judaica, quanto à ciência médica. Instalado na corte de Maria de Médicis e com privilégio real, Montalto publicou, em Paris, a segunda e mais significativa das suas obras médicas, a Archipathologia (1614), estabelecendo, em dezoito tratados, a descrição e a classificação das afeções neuropsiquiátricas e perscrutando essa porvindoura especialidade da Medicina devotada às perturbações da mente e à respetiva terapêutica. A reflexão que aqui se propõe intenta divisar a(s) forma(s) como o divino se insinua, entre vozes e silêncios, e o(s) lugar(es) que ocupa na Archipathologia de Filipe Montalto, obra médica, observante dos preceitos científicos e que confirmou o seu autor como um marco do pensamento iátrico.

 

8) Oren Okhovat (Fulbright Postdoctoral Fellow, Departamento de Historia Moderna, Universidad de Sevilla), “Transnational Patronage Networks Among Portuguese Jews in Europe and the Caribbean”

 

This paper examines the patronage network constructed by a group of Portuguese New Christians native to the town of Vila Real, and which was reconstructed in Amsterdam following their migration and conversion to Judaism there. Utilizing notarial deeds and Jewish communal sources, it analyzes the way in which generational patronage relationships were used by this group of Vila Real families to integrate into the merchant elite of the Amsterdam Portuguese Jewish community, and to expand the family’s trade networks in the Caribbean. It therefore emphasizes how familial and economic patronage relationships transcended religious and political boundaries, but also utilized religious patronage and communal authority to establish patron-client relationships. It further illustrates the way in which patronage acted as strong an adhesive for certain family groups of the “Portuguese nation” as did religious, national, or political affiliations.

 

9) Hervé Baudry (CHAM, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa), “Itinerários sefarditas cruzados: homens e livros de medicina”

 

Propõe-se para esta comunicação debruçarmo-nos sobre o destino dos médicos luso-sefarditas, de Amato Lusitano (séc. XVI) a Ribeiro Sanches (séc. XVIII), e dos seus livros. Focaliza-se sobre o que constitui itinerários cruzados, a ida da pessoa para a diáspora e a volta das suas obras impressas. A bibliografia das obras médicas impressas em Portugal do séc. XV até ao séc. XVIII (Baudry, 2017, 2019, 2023) não integra a produção destes autores publicados em várias cidades da a Europa. Importa, portanto, fazer o retrato destes «retornados» de papel a quem foi reservado um destino particular: o do controlo inquisitorial dos seus textos. Mostrar-se-á assim de que maneira foram censurados, em particular no que contempla a sua condição de cristãos-novos saídos do país.

 

10) Ana Macedo Lima (Instituto de Filosofia, Universidade do Porto), “Oróbio de Castro, leitor de Maimónides”

 

Propõe-se uma abordagem à refutação filosófica da Trindade desde Isaac Oróbio de Castro, procurando ler no autor a influência exercida pela doutrina filosófica de Maimónides, no Guia de Perplexos.

 

11) Virna Salgado Barra (Núcleo de Estudos Sefarditas da Amazónia / NESSA; Universidade de Coimbra), “Shalom Alechem! A Geografia da Amazónia Judaica: migração e hierotopia sefardita em Belém do Pará”

 

Essa pesquisa visa estudar os fluxos migratórios dos judeus de origem sefaradita (ou sefardita), isto é, aqueles que são oriundos do Marrocos e que foram em direção à Amazónia, pois viam nessa última uma espécie de “Nova Canaã” que poderia lhes dar liberdade, estabilidade e fortuna. Sendo assim, refletir sobre os processos de territorialização que deram advento a uma população judaico-cabocla que contribuiu para transformar a paisagem, resignificando o Espaço do Sagrado e metamorfoseando o território amazónico, desde 1810 – período que precede Ciclo da Borracha – até os dias atuais. Nesse contexto, os judeus-marroquinos decidem migrar principalmente para a cidade de Belém, capital do estado do Pará. Trata-se de um tema de fortes relações teóricas e metodológicas com a Geografia das Migrações, com a Geografia da Religião e com a História, cujo objetivo primordial é compreender os fatores atrativos e repulsivos que fizeram da Amazónia o principal destino dos judeus por mais de dois séculos.

 

12) Anabela Fernandes (CEIS20/III, Universidade de Coimbra), “Sobre a enunciação da subjetividade nas obras Os Judeus em Portugal e Judeus Portugueses em Amesterdam, de Joaquim Mendes dos Remédios”

 

No prefácio do segundo volume da obra Os judeus em Portugal, Joaquim Mendes dos Remédios refere as modulações discursivas que poderão ser observadas entre este volume de 1928, o primeiro de 1895 e a obra Judeus Portugueses em Amesterdam de 1911: “Possivelmente o estilo e a linguagem das três obras acusarão matizes diferentes como representando em verdade três fases diversas da vida do autor.” Considerando esta formulação e as perguntas do primeiro volume — “Que qualidades especiaes e características tem esta pretendida raça singular, que resistiu às mais cruéis, às mais bárbaras, às mais persistentes perseguições, e isto durante séculos e quando o ódio só abrandava uma vez que a julgava exterminada? Porque este ódio indomável, que creou aos judeus um martyrologio no seio de cada povo em que se estabeleceu? Finalmente, qual a responsabilidade da igreja nesta illiada de perseguições para as quaes, dizem os seus inimigos, ella concorreu, mais do que nenhum Estado?” —, esta comunicação procura descrever a formação de uma perspetiva que resulta da atitude do próprio autor, podendo ser expressa de forma explícita ou implícita. Para isso, apresentar-se-á uma análise semântica da codificação da intersubjetividade inscrita e evocada no discurso, tendo em conta as expressões epistemológicas e as interpessoais, segundo o modelo de linguagem avaliativa ("appraisal framework", Martin & White, 2005).

 

13) Maria do Carmo Lina Fernandes Alexandre (Divisão SocioCultural, Turismo, Câmara Municipal de Castelo de Vide), “Garcia de Orta: Da Memória aos Monumentos”

 

Garcia de Orta: Da Memória aos Monumentos A presente comunicação apresenta duas esculturas integradas no projeto “Entre Diálogos” – Evocação de Garcia de Orta nos 450 anos da sua morte, aprovado no primeiro Orçamento Participativo da Cultura, que homenageiam o autor dos Colóquios dos Simples e Drogas da Índia… As esculturas perpetuam a memória deste judeu sefardita, que trouxe da Índia matéria médica e narrativas de usos e costumes que inspiraram a abertura da Europa ao mundo no séc. XVI. O médico e botânico cristão-novo nasceu em Castelo de Vide, por volta de 1500, exerceu clínica na terra natal, no ano de 1526, tendo mais tarde viajado até ao Oriente, onde se notabilizou com o livro de farmacognosia, botânica e antropologia cultural, no qual descreve os simples e drogas orientais, mas também episódios da vida em Goa, onde viveu – um Tratado quinhentista, reconhecido pelos muitos investigadores que continuam a estudá-lo passados cinco séculos. As esculturas surgiram de diálogos entre a proponente do projeto e presidente da direção da associação Grupo de Amigos de Castelo de Vide, Maria do Carmo Fernandes, e a criadora, Maria Leal da Costa, artista convidada, eborense e residente em Marvão, escolhida pela grande sensibilidade das suas obras. “Colóquios dos Simples… “(2019), uma obra escultórica a visitar no Jardim Garcia de Orta, em Castelo de Vide, representa o livro aberto. Nas duas superfícies rasgam-se desenhos de plantas e frutos estudados pelo naturalista e, entre as duas grandes páginas em aço ondula uma serpente em mármore branco de Estremoz, símbolo da farmacologia e da medicina; o “Herbário de Garcia de Orta” (2023), no Alentejo Sculpture Park | Parque de Esculturas de Marvão, pretende prestar tributo à personalidade ímpar de Garcia de Orta como botânico, estabelecendo uma ponte de diálogos com a escultura “Colóquios dos Simples”, onde o seu papel de médico e investigador foi realçado. A iconografia, o conhecimento e a fruição dos monumentos em espaços e jardins públicos e privados, numa evocação ao distinto castelo-vidense.

 

14) Carlos Madeira (Investigador Independente), Pedro Madeira (Investigador Independente), Vera Moitinho de Almeida (CODA/CITCEM, Faculdade de Letras da Universidade do Porto), “Marcas e sinais da existência de uma comunidade judaica em Segura (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) nos séculos XV e XVI?”

 

Pessoas mais idosas ouviam contar aos seus pais e avós um estranho costume que tinha lugar na Igreja da Misericórdia, na quarta-feira de cinzas. No decorrer da cerimónia da imposição das cinzas, quando se apagava a última vela de “um candelabro especial”, em forma de triângulo, um grupo de homens e rapazes entrava na Igreja em grande gritaria, batendo as palmas, paus e pedras no chão, chegando a pregar as saias das mulheres ao sobrado. Chamavam-lhes “os judeus”. Segura (concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco), antiga aldeia da Raia do rio Erges, atalaia casteleja de povos esquecidos, castelo medieval da primeira linha de defesa da fronteira, fortaleza seiscentista, praça de armas, foi cenário de grandes e pequenos momentos da História. Nos quinhentos anos decorridos desde a atribuição do foral manuelino, esta aldeia raiana foi alvo de destruições provocadas por guerras sucessivas. A partir dos finais do séc. XVIII, perdida a importância estratégica militar e com a emergência da agricultura extensiva dos cereais, deu-se uma grande renovação urbana. Foi necessário erguer novas habitações, entre outras estruturas. O castelo, a muralha da fortaleza do séc. XVII e os edifícios em ruína constituíam a “pedreira” mais à mão. Pedras bem talhadas das ombreiras e lintéis de portas e janelas das casas quinhentistas em ruínas foram reaproveitadas, nalguns casos fragmentadas, ou colocadas em locais diferentes. Não obstante, algumas sobreviveram completas e, presumivelmente, no lugar original. Em todo o caso, parece sintomática a predominância desses materiais e dessas portas com marcas cruciformes na colina do Outeiro. Terão sido gravadas por uma provável comunidade de cristãos-novos, à semelhança de outras localidades da raia? Curiosamente, ainda hoje se pode verificar que as casas mais antigas das encostas das colinas do Outeiro e do Castelo foram orientadas de modo a que as fachadas com janelas não estivessem frente a frente. Praticamente todas as ruas, excepto as do centro, só apresentavam janelas (quando as tinham) de um dos lados. Além disso, duas das casas da Rua do Outeiro parecem reunir as características que eram requeridas para os dois símbolos da fé e da unidade da comuna judaica – a Casa da Assembleia (beit-knesset) e a Casa de Ensino (beit-midrash). Na inquirição ordenada por D. Manuel I em 1496, a localidade vizinha de Salvaterra da Beira (hoje Salvaterra do Extremo), tinha uma judiaria, com a respectiva sisa judenga. A degradação do documento original não permitiu a transcrição de alguns trechos, possivelmente incluindo Segura. Não obstante, a chancelaria manuelina produziu diversos documentos, atestando a relevância daquela localidade. Embora não se possa deduzir uma origem apenas a partir dos nomes, é de considerar o número de apelidos de famílias de Segura conotados com os nomes cristãos adoptados pelos judeus que se encontram nos registos de óbitos dos séculos XVII e XVIII (recolhidos por Marques de Andrade, 1949). Neste colóquio, iremos apresentar o primeiro levantamento das casas com siglas cruciformes na aldeia de Segura, que, juntamente com outros dados, sugerem a presença de uma comunidade judaica nesta parte do território Português.