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1) Angelo Adriano Faria de Assis (Universidade Federal de Viçosa, Brasil), “Representações da ação inquisitorial no Brasil a partir de três obras do cinema: Desmundo, A Santa Visitação e As Órfãs da Rainha

 

Embora nunca tenha contado com um tribunal estabelecido, a presença do Santo Ofício na América portuguesa se manteve de forma efetiva ao longo do processo de colonização, seja através das visitas, como as que ocorreram entre 1591-1595, 1618-1620 e 1763-1769, seja pela articulação de uma rede capilarizada de representantes. Sinal da presença efetiva inquisitorial na luso-América são os mais de mil processos e milhares de confissões e denúncias envolvendo indivíduos nascidos, moradores ou de passagem pelo Brasil.

 

Os estudos envolvendo a presença e ação inquisitoriais ganharam espaço nas últimas décadas, abordando temáticas e análises diversas, em diálogo com outros campos do conhecimento. Igualmente relevante é a produção de narrativas que envolvem o Santo Ofício, em ramos como a produção fílmica brasileira, com foco especial, para o limite deste trabalho, em três filmes recentes: Desmundo (2003, direção de Alain Fresnot), baseado em romance homônimo de Ana Miranda; A Santa Visitação (2006), dirigido por Elza Cataldo, que também dirige o recém-lançado As Órfãs da Rainha (2023). Recorrendo a fatos e personagens tanto históricos quanto fictícios, as obras abordam, com foco particular em personagens femininas, episódios que refletem as transformações ocorridas nas relações sociais aquando da chegada dos representantes do Tribunal na colônia, bem como estratégias possíveis de resistência, em especial, criptojudaica. Buscamos discutir se as adaptações e narrativas cinematográficas apresentam um quadro mais ou menos próximo do que se conhece pelas fontes históricas acerca dos episódios representados nas telas e em que medida estes campos podem colaborar na compreensão do tema.

 

2) António Guimarães Pinto (Universidade Federal do Amazonas, Brasil), “Manuel Bocarro Francês e o poeta neolatino Gaspar Pinto Correia: dois olhares poéticos e proféticos sobre D. João IV”

 

A finalidade desta comunicação é, em primeiro lugar, chamar a atenção para as extraordinárias coincidências que foi possível detectar entre as obras poéticas de intenção épica de dois autores contemporâneos (Manuel Bocarro Francês e Gaspar Pinto Correia), nos quais um comum  messianismo utópico e a crença na restauração próxima da coroa portuguesa, na pessoa do futuro D. João IV, se apresentam de forma nítida, e com laivos fortemente anti-castelhanos, em anos tão recuados como a segunda década do século XVII. Em segundo lugar, pretende o autor deste trabalho chamar a atenção para a figura do escritor neolatino Gaspar Pinto Correia, hoje totalmente desconhecido, apesar do real valor da sua produção poética.

 

3) António M. L. Andrade & Emília M. Rocha de Oliveira (CLLC, Universidade de Aveiro), “A recepção dos Colóquios de Garcia de Orta entre os médicos portugueses durante o reinado de D. Sebastião: as epistolae medicinales e os consilia de Jorge Godines”

 

São conhecidas as escassíssimas referências feitas a Garcia de Orta durante a sua permanência no Oriente, onde pontuam apenas uma carta de Luís Froes e um comentário de Diogo do Couto. Ademais, houve um conjunto reduzido de autores com acesso à edição portuguesa dos Colóquios dos Simples – Carolus Clusius, Juan Fragoso, Cristóvão da Costa e Jan Huygen Van Linschoten –, dado que a grande difusão da obra se fez, sem dúvida, através do epítome latino pronta e repetidamente publicado e actualizado por Clusius (Antuérpia, 1567), pouco depois vertido também para italiano (1576) e francês (1602). Naturalmente, não é crível que o livro tenha despertado apenas a atenção de Clusius, que o encontrou, por acaso, em Lisboa em meados da década de sessenta, tanto mais que os Colóquios foram dirigidos expressamente por Dimas Bosque a Tomás Rodrigues da Veiga, uma das figuras cimeiras da Universidade de Coimbra e da medicina portuguesa no século XVI. Não obstante o silêncio quase generalizado entre os médicos portugueses, é pouco provável que o livro de Garcia de Orta não tenha circulado em Portugal, ainda que num círculo restrito, depois da sua publicação na capital do Estado da Índia (Goa, 1563). De facto, trazemos a público, por vez primeira, uma análise do conjunto de referências que o médico Jorge Godines, discípulo de Tomás Rodrigues da Veiga, à semelhança do próprio Dimas Bosque, faz aos Colóquios dos Simples do médico de Castelo de Vide nos anos subsequentes à edição goesa.

 

4) Claude B. Stuczynski (Department of General History, Bar-Ilan University, Ramat-Gan – Israel), “Nem Isaac Cardoso , nem o Padre Vieira; Uma defesa dos ‘homens da nação hebrea’ escrita em 1624: o texto, o contexto e o significado”

 

Esta conferência é uma análise do manuscrito anónimo “Apologia em abono dos christãos cognominado novos, deste reino de Portugal”, escrito em 1624.  Uma análise deste texto único e excepcional, compulsado no seu contexto histórico e significado argumentativo específico, é uma contribuição para um melhor conhecimento do género apologético a favor dos cristãos-novos que foi produzido na península ibérica desde os começos do fenómeno converso até ao século XVIII.

 

5) Elvira Cunha de Azevedo Mea (CITCEM, Universidade do Porto), “A implicância de “ser” judeu num mundo em mudança” 

 

“Um judeu é um homem que os outros homens consideram judeu”, diz Sartre, mas, a verdade é que, como acrescenta Diane Kuperman, “o judeu é um homem que se declara judeu, antes que os outros lembrem-no de sua condição. Porque, mesmo que se assimile, se esconda ou negue a sua origem, haverá sempre um momento em que será apontado como tal. Uma disputa, uma concorrência, uma questão mal resolvida e logo surge a acusação cheia de rancor: “é um judeu.” (Anti-Semitismo. Novas facetas de uma velha questão, Rio de Janeiro, 1992, p.51).

 

Sempre assim foi, pelo que essa implicância, muito perigosa no mundo tão mudado da época moderna, sobretudo onde o “ofício santo” de tribunais da Inquisição conceptualizava que num cristão novo havia sempre algo de judeu; onde mesmo que não fosse visível ou sequer perceptível quaisquer laivos de comportamento judaico, era possível chegar à crença, a sentimentos e intenções de identidade judaica, susceptíveis de julgamento, já que esse “ofício santo” era assistido pelo Espírito Santo.   

 

Assim sendo, as perspetivas de defesa e simultaneamente as provas reais da sua condição de cristão esvaiam-se facilmente, num mundo onde, não obstante a lei ditar a igualdade de direitos e deveres entre cristãos-novos e velhos, a sociedade continuou insistentemente em estabelecer a diferença entre cristão novo e cristão velho, criando todo um estatuto de pureza de sangue, que lhe permitia defender-se da agressividade concorrencial dessa minoria, a todos os níveis.

 

6) Fernanda Olival (CIDEHUS, Universidade de Évora), “Inquisição e resistência”

 

Em Portugal a oposição ao tribunal do Santo Ofício não foi grande, quando comparada com o mesmo fenómeno nas coroas de Castela e Aragão. Neste quadro, esta apresentação parte do seguinte problema: não houve grande oposição, mas será que houve resistência? Que espaço para a resistência houve face a um tribunal como o da Inquisição?

 

O objetivo consiste em inventariar de que modos era possível enfrentar o poder e o controlo desenvolvido pelo Santo Ofício, tanto pela via formal como sobretudo pela informal.

 

Serão usadas fontes diversificadas como processos, visitações e habilitações aos cargos de familiares. Do ponto de vista metodológico privilegiar-se-á o cruzamento de dados.

 

7) James W. Nelson Novoa (Department of Modern Languages and Literatures/Medieval and Renaissance Studies, University of Ottawa, Canadá), “Ficções da memória: a herança de António da Fonseca (1586-1901)”

 

O mercador cristão-novo António da Fonseca (1515?-1588) foi um dos vários homens da Nação que conseguiu ascender às esferas mais elevadas do poder real e simbólico na sede mundial da Igreja Católica, estabelecendo relações importantes na Cúria romana através de negócios com a Câmara Apostólica.  Durante a sua estada em Roma, o mercador-banqueiro lamecense teve o cuidado de tomar uma série de medidas para perpetuar a lembrança dele e dos seus como fiéis católicos, tudo fazendo para eliminar a memória do passado judaico da sua família.  Recorrendo a documentação da igreja nacional espanhola em Roma, damos a conhecer a herança oficial e pública de Fonseca através da gestão do seu legado na Cidade Eterna entre 1586 e 1901.

 

8) Manuel F. Fernández Chaves (Universidad de Sevilla, Espanha), “El testamento de Duarte Rodrigues Reynel: negocios de familia entre el Atlántico y el Mediterráneo ibérico en el siglo XVI”

 

En este trabajo se analizan las redes mercantiles y de parentesco trazadas entre el Atlántico ibérico, Castilla, Portugal e Italia en las décadas centrales del siglo XVI por parte del mercader cristão-novo Duarte Rodrigues Reynel. Su testamento inédito, redactado en Florencia en 1577 permite cartografiar estas redes y añadir nuevos datos a nuestro conocimiento de la participación portuguesa en la economía global del siglo XVI, como conectores de espacios geográficos y agentes protagonistas. Estos resultados vienen a complemetarse con aquellos que conocemos de la trayectoria vital de su hermano, Blas Reynel, y que abordamos en otro trabajo. Se utilizarán para ello tanto las fuentes florentinas como de archivos españoles y portugueses, privilegiando el cruce de fuentes y archivos y la historia conectada y comparada

 

9) Maria de Fátima Reis (CESAB; Centro de História da Universidade de Lisboa; Academia Portuguesa da História), “Gonçalo de Luna, um cristão-novo de Castelo de Vide na Hispano-América”

 

Querendo dar destaque a gente da terra, este estudo centra-se na história de vida de um cristão-novo viticastrense, Gonçalo de Luna, que se fixou em Potosi. Beneficiando dos estudos conhecidos sobre o vice-reinado do Peru no período colonial, mormente de famílias condenadas como judaizantes, acompanha-se o trajecto de um natural de Castelo de Vide, preso pela Inquisição da Cidade dos Reis, no Peru. Regressado a Portugal e apresentado à Inquisição de Lisboa, o processo então instruído permite perceber o trajecto de Lima a Lisboa e ainda a articulação entre as inquisições ibéricas, para além da mobilidade entre os dois impérios adentro a União Dinástica.

 

10) Miguel Rodrigues Lourenço (CHAM, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa; UCP-CEHR; Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste, FLUL) & Susana Bastos Mateus (Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste, FLUL; CIDEHUS, UÉvora), “A estranhas terras nos desviou”: o estabelecimento da Inquisição em Goa e o fim de um “porto seguro” para os cristãos-novos”

 

O Estado da Índia foi um dos espaços de migração de cristãos-novos durante a primeira metade do século XVI após o estabelecimento da Inquisição em Portugal. Apesar de nunca ter constituído um espaço alheio ao debate sobre a presença de cristãos-novos, Goa foi opção para o estabelecimento de muitas famílias oriundas do Reino, que aí estreitaram laços de solidariedade entre si através de uniões matrimoniais e parcerias comerciais. A realização de uma devassa eclesiástica nos finais da década de 1550 e o estabelecimento da Inquisição em Goa em 1560 demonstraram à comunidade local de cristãos-novos a impossibilidade de assegurar, junto das autoridades do Estado da Índia uma solução que evitasse a presença de um escrutínio e vigilância da fé. Entre 1561 e 1571, a primeira fase de repressão de judaísmo gerou, entre vários dos moradores de Goa, a consciência que a sua permanência na cidade não era, já, sustentável. Ao longo da década, muitos indivíduos tomaram a opção de migrar a espaços de menor institucionalidade como o recém-formado assentamento de Macau ou a territórios fora do Estado da Índia como os sultanatos vizinhos e, ainda, de regressar ao Reino. Através de alguns estudos de caso, analisaremos algumas destas rotas migratórias que levaram os cristãos-novos para essas “estranhas terras”, retomando a expressão de Samuel Usque.

 

11) Rui Manuel Loureiro (ISMAT; CHAM/NOVA) & Teresa Nobre de Carvalho (CHAM/NOVA), “Um livrinho de Clusius sobre Garcia de Orta e o seu contexto global”

 

O naturalista flamengo Charles l’Écluse publicou em Antuérpia, em 1582, um livrinho intitulado Aliquot notae in Garciae Aromatum Historiam. Esta obra pouco divulgada, um in-octavo de 43 folhas, muito ilustrado, continha uma primeira secção com alguns aditamentos à versão latina dos Colóquios dos simples e drogas e cousas medicinais da Índia de Garcia de Orta, que Clusius publicara anos antes, em 1567, na mesma cidade, e uma segunda secção com informações sobre história natural (sobretudo oriental) referentes à viagem de circum-navegação realizada pelo navegador inglês Francis Drake, entre 1577 e 1580. A presente comunicação explorará este pequeno tratado botânico, tanto no aspecto textual, apresentando nomeadamente o respectivo contexto global, como no aspecto iconográfico, evidenciando o seu carácter inovador.

 

12) António Pita (Câmara Municipal de Castelo de Vide), “O Património Judaico de Castelo de Vide: Um Valor Estratégico na Promoção Turística do Concelho”

 

13) Luís Reis Torgal (professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e fundador no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da mesma Universidade (CEIS20)), As três culturas de dois judeus

 

Francisco Manuel de Melo no Hospital das Letras chamou a António Henriques Gomes e a Manuel Fernandes Vila Real "dous portugueses enxertados em galos". Na verdade só um, Vila Real, é português. Mas, como Henriques Gomes esteve ao serviço da Restauração e da Casa de Bragança é tido muitas vezes como português. Seja como for, ambos são insistentemente unidos e considerados judeus, embora formal e originalmente fossem cristãos novos ou "conversos".

A cultura hispânica, católica, é oficialmente a sua, embora nenhum deles tenha tido uma formação académica e nenhum a tenha adoptado como princípio integrista. Ambos tiveram uma formação resultante da sua experiência nómada e de financistas e mercadores (e militar, no caso de Vila Real). Mas, não restam dúvidas que a sua cultura é fundamentalmente de base judaica, pois ambos eram de "gente de nação". Nessa medida, de uma forma directa ou indirecta, os dois acabaram por ser combatentes contra a prática das Inquisições castelhana e portuguesa.

Há, porém, outra cultura que vem ao de cimo, como bem detectou D. Francisco Manuel de Melo: a cultura francesa que, embora católica tinha outra prática, especialmente mais tolerante, por "razão de Estado", quanto a outros credos. Isso é notório não só nas obras que escreveram dedicadas ao "Rei Cristianíssimo" de França ou a seus ministros, mas também às suas leituras. As obras apreendidas pela Inquisição a Vila Real, na sua chegada a Lisboa em 1649, e sobre as quais foi interrogado no seu processo do Santo Ofício, revelam a sua bibliofilia, como um certo interesse por obras de inspiração huguenote.

"Três culturas", que, unidas, num mundo caracterizado pela intolerância em estados de religião oficial única, teriam de ser uma das causas do seu destino trágico. Sobretudo se ambos, como sucedeu, acabassem por não ter consciência que, ao regressarem a Portugal e a Espanha, entravam num "outro mundo", separado politicamente depois de 1640, mas unido pela mesma crença.

 

Saul António Gomes (CHSC, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), “As primeiras gerações de cristãos-novos em Portugal”

 

O autor propõe-se apresentar alguns resultados de uma investigação debruçada sobre a presença de cristãos-novos em Portugal no período anterior à instalação do Tribunal do Santo Ofício. Aduz elementos documentais que assinalam a existência organizada de algumas dessas comunidades, reconhecidas pela Coroa, e apresenta contributos para a identificação prosopográfica de alguns dos judeo-cristãos dentre 1496 e 1536.